Capítulo 10
Capítulo 10
— Onde você esteve esse tempo todo?
Antes que Lee-yeon pudesse responder à sua primeira pergunta, ele repetiu:
— O único rosto de que me lembro é o seu. Mas eu… eu não conseguia abrir a porta.
Ele soltou um gemido de frustração. Seus olhos estavam cheios de confusão e ignorância.
A porta no segundo andar, por onde Lee-yeon costumava entrar, não podia ser aberta por dentro. Ele havia arrombado a porta dos fundos e rastejado pelo chão assim que ela havia entrado no quarto.
Ao lembrar-se dessa sequência de eventos, um arrepio percorreu a espinha de Lee-yeon.
Kwon Chae-woo não era normal.
Ele havia dormido por doze dias seguidos e acordado coberto de suor, poeira e sangue. Mas, talvez, ainda houvesse esperança.
Talvez esse fosse o fim.
Instintivamente, uma ideia surgiu em sua mente.
Era a hora.
— Eu… não sei do que você está falando.
Lee-yeon fingiu ignorância, e o homem inclinou a cabeça, franzindo a testa.
— Talvez você tenha tido um sonho longo e vívido — continuou ela. — Eu sou a médica responsável pelo seu tratamento e…
Uma pontada de culpa a atingiu.
— Estamos na fazenda do chefe da vila. Precisamos sair logo daqui. Eu pagarei pelo frango.
Kwon Chae-woo continuava a franzir a testa, sem desviar o olhar dela.
— Kwon Chae-woo, você se lembra de que dormiu por todo esse tempo? Você esteve gravemente doente e inconsciente. É normal sentir-se confuso. Mas não se preocupe. Você estava sonhando. Agora, está desperto.
Ela enfatizou a palavra “sonhando”, apenas para garantir.
— Tudo o que acha que viu ou ouviu foi apenas um truque da sua mente. Um mecanismo de defesa. Você precisa descansar. Depois, se sentirá melhor.
No entanto, Lee-yeon não percebeu um detalhe importante.
Seu plano de descartar tudo como um simples “sonho” poderia sair pela culatra.
— Um sonho? — repetiu Kwon Chae-woo, passando lentamente a língua pelos lábios, limpando o sangue.
Parecia que, desta vez, ele estava realmente acordado.
— Entendi.
Ele apontou para a parte inferior do corpo dela.
— Se não fosse um sonho, você não estaria de pé assim.
Confusa, Lee-yeon olhou para as próprias pernas.
Nesse momento, sua voz baixa e rouca atingiu seus ouvidos como um choque elétrico.
— Durante todo esse tempo… — ele murmurou — só sonhei em transar.
Ela arregalou os olhos, sem conseguir responder.
— Com minha esposa — continuou ele, impassível. — Eu entrava e saía de você… repetidamente.
Lee-yeon quase gritou.
Seu corpo inteiro ficou paralisado.
— Então, eu não estou confuso — ele disse, com uma certeza aterradora. — Eu me lembro claramente.
Lee-yeon deu um passo para trás, instintivamente.
Ele… ele se lembra de tudo?
Do dia em que nos encontramos na montanha…?
— Eu tenho uma esposa — ele afirmou, avançando em sua direção. — E ela está tentando fugir de mim agora.
Ele caminhava em sua direção, nem rápido, nem devagar.
Cada passo era calculado, implacável.
Lee-yeon queria desesperadamente correr. Suas pernas tremiam.
Ela havia planejado essa armadilha, mas agora era ela quem estava presa nela.
No instante em que ele ficou perto o suficiente para tocá-la, Lee-yeon finalmente conseguiu se afastar.
— Você queria me abandonar porque seu marido agora é um inútil doente?
Ele não é burro.
— Qual é o seu nome? — A voz dele soou mais fria. — Não me faça perguntar de novo.
— Eu… eu sou So Lee-yeon — respondeu, por fim.
— So Lee-yeon.
Kwon Chae-woo lambeu os lábios, engolindo o nome dela junto com o sangue que ainda restava.
— Por que está tentando me deixar?
Os olhos dele brilharam na escuridão.
— Fiquei tão inútil para você só porque não consigo usar meu corpo direito?
Algo a envolveu, apertando firmemente seu tornozelo.
Ela não sabia se era um grilhão invisível, a gravidade de um pântano ou a cauda de uma fera.
Mas havia uma única certeza pulsando em suas veias.
Ela estava em perigo.
Seu corpo inteiro sentia isso e queria correr.
— Kwon Chae-woo, não foi isso que eu quis dizer…
— Não?
Agora, a situação havia se invertido completamente.
Lee-yeon se via encurralada, incapaz de encontrar uma saída convincente.
— Uma esposa que você nem se lembra de ter… apareceu do nada na sua frente. Eu achei que isso poderia afetá-lo.
Sua voz saiu trêmula, mas ela continuou:
— Achei que poderia te deixar desconfortável, sobrecarregado. Por isso… por isso eu…
— Então, você está me dizendo que fez isso pelo meu bem?
O tom de voz dele não tinha nenhuma emoção.
A dúvida se infiltrou na mente de Lee-yeon.
Mas ela decidiu manter essa justificativa.
Com firmeza, assentiu.
— Mentira — ele disse sem rodeios.
Ela engoliu em seco.
— Por que você está fazendo algo que eu nem pedi? Eu não quero isso.
Desde que acordou, Kwon Chae-woo sempre havia falado com um tom educado.
Mas, agora, sua voz soava vazia.
Sem sentimentos.
— Você me disse que somos casados perante a lei. Mas, de repente, quer se livrar de mim?
Isso é porque você é naturalmente cruel. Lee-yeon tentou dizer algo, mas não conseguiu pronunciar uma palavra. Eu estou realmente morta…
Seu olhar escuro e profundo a envolveu por inteiro.
— Alguém arrancou todas as memórias da minha cabeça… mas o único rosto de que me lembro é o seu. — Ele deu um passo à frente. — Eu realmente devo ser seu marido.
— Fiquei fora de mim quando percebi que você queria me abandonar.
Isso porque você já era um monstro, pensou Lee-yeon.
Mas não ousou dizer em voz alta. Não havia saída para ela. Estou morta…
Lee-yeon sabia que precisava manter a compostura.
Não podia se desesperar. Se perdesse o controle, a situação poderia se tornar ainda pior. Mas parecia que ele ainda não tinha terminado. Kwon Chae-woo sabia ser intimidador. Seu único ponto fraco era a falta de memória e Lee-yeon tinha essa vantagem.
Ela podia guiá-lo para onde quisesse, mas, desta vez, o plano saiu pela culatra.
— Acho que eu te amava muito — ele murmurou.
Não, seu idiota! Você tentou me matar!
Ela queria gritar isso, mas as palavras ficaram presas na garganta.
A armadilha que ela mesma montou agora estava se fechando ao seu redor.
O ódio assassino dele havia se transformado em amor.