Capítulo 00
Prólogo
Apesar da serra elétrica em suas mãos, ela congelou de terror. Um par de olhos azuis brilhavam na escuridão. Seu corpo ficou paralisado pelo olhar sanguinário do homem. Ela não conseguia se mover enquanto seus olhos encontravam os de um homem que estava enterrando alguém vivo.
Seus pensamentos rodopiavam em sua mente como uma sirene. Assassino… Aquele termo, que ela só tinha visto antes em manchetes de jornais, agora sacudia sua realidade. Um suor frio brotou em sua pele, e arrepios percorreram seu corpo. Tudo o que ela sempre quisera era uma vida tranquila e segura. Era pedir demais?
O dia de hoje tinha sido completamente normal, sem nada de especial. Ela tinha ido ao hospital, revisado contas atrasadas, inspecionado árvores em tratamento contra doenças e discutido com um cliente que ainda não tinha pago pelo serviço há mais de um mês.
Era um hábito antigo da doutora em árvores, So Lee-yeon, subir a montanha à noite para verificar as árvores negligenciadas. Hoje não tinha sido diferente de qualquer outro dia. A montanha era uma propriedade privada, mas sem qualquer gestão adequada. A vegetação crescia descontrolada, dando a ilusão de formas fantasmagóricas e criaturas ocultas.
Como acontecia em áreas abandonadas, as árvores ali sofriam de desnutrição e abandono, então ela sempre cuidava delas com carinho.
— Socorro! Por favor, me ajude! — A voz abafada do enterrado implorava. Mas os gritos foram interrompidos abruptamente quando a terra o cobriu completamente, deixando apenas um silêncio opressor no ar.
O homem alto vestia um reluzente casaco de chuva preto de plástico. Ele cavava a terra e a despejava na cova com uma facilidade assustadora. Como se já tivesse feito isso muitas vezes antes.
— P-por favor! — A voz desesperada voltou a soar. Um braço emergiu do solo recém-revolvido, arranhando o chão em busca de algo para se agarrar. — Eu vou c-contar tudo!
Diferente da vítima que lutava contra a morte iminente, o homem apenas cantarolava uma melodia, calmamente.
— Errado! — disse ele, por fim. — Você devia estar implorando para que eu te matasse aqui mesmo.
O silêncio se prolongou.
— Ajuda…
— O espetáculo está apenas começando.
Então, o homem pressionou a mão que saía do chão com o pé e a chutou repetidamente, esmagando-a sem piedade.
— Ahhh!! — Um grito de dor rasgou a noite.
Seu rosto permaneceu impassível, mas ele chutava com uma fúria descontrolada. Os dedos da vítima estavam quebrados, ensanguentados.
— Aaaah…! — O choro abafado e doloroso ecoava sob a terra.
— Não sabe que quanto mais você grita, mais animado eu fico?
— Aaaaaa!
— Eu nunca paro, porque idiotas como você continuam aparecendo.
O homem se assemelhava a uma bétula—árvore conhecida por brilhar suavemente à noite. Seu rosto era pálido e impecável, mas não tinha a vitalidade de alguém vivo. Lee-yeon só conseguia encará-lo, horrorizada, enquanto ele observava seu próprio reflexo na lâmina.
— Aaaa, por favor!
A terra tremia com os gritos e soluços que vinham debaixo dela. A cabeça do homem enterrado apareceu, mas o assassino a esmagou com o pé, como se apagasse um cigarro. Com o capuz do casaco cobrindo metade de seu rosto, tudo o que Lee-yeon conseguiu ver foram seus longos lábios.
Quando a vítima finalmente parou de se mover, a realidade caiu sobre Lee-yeon como um peso esmagador. Isso é uma cena de assassinato!
A cena brutal diante de seus olhos era tão surreal que seu coração disparou. Ela engoliu em seco e com muito medo, suas mãos começaram a suar enquanto ela escondia o telefone atrás das costas e tentava discar 112. Movia os dedos cegamente, confiando apenas no tato, sem desviar os olhos da cena.
Então, pisou em um galho seco.
O estalo foi insignificante em circunstâncias normais, mas, na quietude da noite, ecoou como um trovão.
O homem, que até então ignorava os gritos agonizantes, parou de cavar. Ele deixou a pá cair, e o olhar de Lee-yeon seguiu o objeto até o chão.
Ela prendeu a respiração. Só então percebeu o cheiro forte de sangue vindo do corpo imóvel. O branco da camisa da vítima agora era um tom vermelho escuro e encharcado.
— Mas que porra é essa? — Uma voz fria soou perto dela. — Já não passou da hora de correr?
Um tiro foi disparado.
Lee-yeon correu. A terra úmida da chuva fazia seus sapatos afundarem e escorregarem no solo lamacento. Era difícil se mover rápido, mas hesitar sequer um segundo significava morrer. Seu coração martelava no peito. Ela arfava por ar, mas não parava.
A ligação finalmente completou.
— Delegacia de Hwayang.
— A-a-alô… — Ela gaguejou.
— Senhora, por favor, fale devagar.
As lágrimas transbordaram. Ela estava aterrorizada.
— E-eu vi alguém e-enterrando um corpo! Por favor, venham rápido. E-ele me viu. Estou em perigo!
— Qual é o seu nome, senhora?
— So Lee-yeon! Por favor, eu posso morrer!
— Por favor, tente se acalmar. Consegue nos informar sua localização?
Ela respirou fundo, lutando para manter a compostura.
— S-sim! Aqui tem várias árvores de carvalho japonês. Também passei por um olmo com um buraco enorme. Por favor, depressa! –So Lee-yeon respondeu da melhor forma de pôde, tentando manter a calma, sua respiração estava saindo forte e pesada.
— Você consegue nos dar mais informações? Há alguma construção ou ponto de referência próximo?
Lee-yeon se esforçou para pensar.
— Hospital Spruce Tree! A montanha bem atrás dele!
— Estamos a caminho. Senhora, espero que saiba que, se isso for um trote, haverá consequências.
— Não é! Por favor, venham rápido!
Ela finalmente alcançou a estrada na entrada da trilha. Tentou recuperar o fôlego. Foi quando algo fino como um fio de cabelo se enrolou ao redor de seu pescoço e a puxou para trás com força. Ela tentou desesperadamente segurar o fio que cortava sua pele, mas era fino demais.
— Ei, você deixou isso cair.
Os pelos de sua nuca se arrepiaram. A respiração quente tão próxima de seu ouvido era apavorante.
Uma das mãos do homem apertava o fio ao redor de seu pescoço, enquanto a outra empurrava algo pesado em sua mão.
Antes que perdesse completamente a consciência, Lee-yeon reuniu todas as suas forças e balançou o objeto contra ele.
Ela sentiu o impacto do golpe e ouviu algo quebrar quando a serra elétrica atingiu o homem.
Com o desespero tomando conta, ela balançou novamente. Duas vezes mais. O fio ao redor de seu pescoço afrouxou.
Lee-yeon, apavorada, não olhou para trás.
A serra finalmente rugiu para a vida.
Aquele era o primeiro encontro dela com seu paciente secreto—um homem em estado vegetativo que, por dois anos, permanecera deitado, imóvel.